A Conquista Quilombola que Transforma o Direito Fundiário no Brasil
A tese da primeira doutora quilombola do Brasil transcende a academia, tornando-se uma ferramenta crucial na redefinição das políticas de regularização fundiária e acesso à justiça para comunidades tradicionais.
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A recente defesa de tese de Vercilene Francisco Dias, advogada quilombola que se tornou a primeira mulher de sua etnia a conquistar um doutorado em Direito no Brasil pela Universidade de Brasília (UnB), representa muito mais do que um feito acadêmico individual. É um divisor de águas que projeta uma nova luz sobre as intrincadas questões da regularização fundiária e da representatividade nas esferas de poder do país.
Vercilene, nascida no histórico Território Kalunga, no interior de Goiás, personifica a resiliência e a busca incessante por justiça. Sua jornada, marcada pela necessidade de aprender a ler para servir sua comunidade e pelo trabalho como empregada doméstica para financiar seus estudos, culmina em um doutorado cujo objeto de pesquisa é a própria luta de seu povo: os desafios na posse e titulação das terras quilombolas. Este percurso, do quilombo à academia, é fundamental para compreender o "porquê" de sua tese ter um peso tão significativo.
A singularidade do trabalho de Vercilene reside em sua perspectiva endógena. Ao invés de uma análise externa, sua tese emerge de uma vivência profunda com as disputas territoriais. Ela traz para o debate jurídico formal a complexidade e a urgência de uma realidade muitas vezes ignorada. Sua pesquisa desvela as lacunas do arcabouço jurídico atual, propondo caminhos para uma regularização fundiária que respeite a identidade e a cultura desses povos. Este evento não é apenas um triunfo pessoal; é um potente catalisador para o aprimoramento das políticas públicas voltadas para comunidades tradicionais.
Por que isso importa?
Contexto Rápido
- O reconhecimento constitucional dos direitos quilombolas sobre suas terras, garantido pelo Artigo 68 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias (ADCT) de 1988, ainda enfrenta morosidade e conflitos na prática, com muitos processos de titulação estagnados por décadas.
- Dados recentes do Censo 2022 do IBGE revelam que, apesar de representarem uma parcela significativa da população brasileira, pessoas negras – e especialmente mulheres negras – permanecem sub-representadas em posições de liderança e na educação de alto nível, evidenciando a persistência de barreiras estruturais.
- A disputa por terras no Centro-Oeste brasileiro, onde o Território Kalunga está inserido, é intensificada pela expansão do agronegócio e projetos de infraestrutura, gerando conflitos que afetam diretamente a segurança e a subsistência de comunidades tradicionais na região.
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