São Paulo em Alerta: O Crescimento Exponencial de Medidas Protetivas Confronta a Fragilidade da Fiscalização
Enquanto o número de decisões judiciais para coibir a violência doméstica dispara no estado, a limitada aplicação do monitoramento eletrônico expõe uma lacuna crítica na segurança das vítimas.
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São Paulo, o estado mais populoso do Brasil, registra um alarmante aumento na concessão de medidas protetivas contra agressores, um recurso vital para mulheres em situação de violência doméstica. Dados recentes revelam que, somente nos primeiros dois meses do ano, mais de 21 mil decisões foram autorizadas, solidificando uma tendência de crescimento de quase 1.000% na última década. No entanto, por trás desses números que indicam maior busca por proteção, reside um dilema crítico: a discrepância entre a ordem judicial e sua efetiva fiscalização.
Apesar da existência de tecnologia e estrutura para monitoramento eletrônico, como tornozeleiras, o número de agressores realmente acompanhados é insignificante frente à demanda. Este descompasso não apenas fragiliza a segurança das vítimas, mas também suscita questionamentos profundos sobre a capacidade do sistema de justiça em garantir a eficácia de suas próprias determinações. O "porquê" dessa lacuna é multifacetado, englobando desde restrições judiciais para a aplicação das tornozeleiras até a necessidade de uma rede de apoio mais robusta e humanizada, indo além da tecnologia.
Por que isso importa?
O aparente avanço na concessão de medidas protetivas, embora sinalize maior conscientização, revela uma dura verdade para o cidadão paulista: a promessa de segurança pode ser ilusória. Para a mulher que busca refúgio na justiça, a medida protetiva, sem fiscalização adequada, torna-se um "pedaço de papel" – uma expressão contundente utilizada por especialistas. Este documento, legalmente vinculativo, falha em garantir a integridade da vítima se o agressor não for efetivamente dissuadido ou monitorado.
O impacto direto é vivido por milhares de mulheres que, mesmo com decisões judiciais favoráveis, permanecem vulneráveis. A pesquisa do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, apontando que uma em cada cinco vítimas de feminicídio na capital paulista tinha medida protetiva vigente, ilustra essa falha dramática. Não é apenas uma estatística; são vidas interrompidas e a falência de um propósito fundamental do sistema. A sensação de impunidade, segundo promotores, pode encorajar agressores e desestimular novas denúncias, perpetuando o ciclo da violência.
Para a sociedade, a ineficácia na fiscalização gera um custo social imenso. Além da tragédia humana, há o desgaste público e a erosão da confiança nas instituições. A existência de centenas de tornozeleiras eletrônicas ociosas, enquanto a violência avança, sinaliza falha na gestão e priorização de recursos. O problema, como sublinham os especialistas, não reside na lei, mas na ausência de uma resposta executiva coordenada que garanta a efetividade da proteção. O leitor deve compreender que este é um desafio sistêmico que exige aprimoramento tecnológico, investimento em acolhimento humano, e, crucialmente, a fiscalização rigorosa das decisões judiciais para que a proteção seja uma realidade, não uma mera formalidade.
Contexto Rápido
- A Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340/2006) estabeleceu as medidas protetivas de urgência como um pilar fundamental no combate à violência doméstica e familiar, conferindo às vítimas instrumentos legais para afastar e coibir agressores.
- O Tribunal de Justiça de São Paulo registrou um aumento de 994% na concessão de medidas protetivas entre 2015 e 2025. Em janeiro e fevereiro deste ano, foram 21.440 autorizações, uma média de uma a cada quatro minutos, contrastando com apenas 189 agressores monitorados ativamente por tornozeleira eletrônica no estado, que possui 1.250 equipamentos disponíveis.
- Para a população paulista, este cenário regional levanta sérias preocupações sobre a real efetividade da proteção legal, transformando o que deveria ser um escudo em um documento com potencial fragilidade diante da violência.