Ver-o-Peso: A Celebração Subalterna dos 399 Anos e a Urgência do Reconhecimento Imaterial
Enquanto a prefeitura cancela eventos, feirantes de Belém mobilizam-se para garantir que a alma centenária do maior mercado livre da América Latina seja, finalmente, patrimônio.
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Em um gesto de profunda resiliência cultural e econômica, os feirantes do icônico Mercado Ver-o-Peso, em Belém, celebraram os 399 anos do complexo de forma autônoma e carregada de significado. Longe dos holofotes de uma programação oficial que fora cancelada pela prefeitura, a comunidade do mercado orquestrou uma comemoração simbólica, mas poderosa, que sublinha não apenas a longevidade do espaço, mas também a persistência de uma reivindicação essencial: o reconhecimento das suas atividades centenárias como patrimônio cultural imaterial.
Este ato, articulado pelo Instituto Ver-o-Peso, transcende a mera celebração. Ele evidencia a lacuna entre a grandiosidade histórica e arquitetônica do complexo, já tombado pelo Iphan, e a ausência de uma salvaguarda equivalente para os saberes, fazeres e a própria identidade dos trabalhadores que, por séculos, dão vida a este epicentro amazônico. A luta agora é para que a alma do Ver-o-Peso, encarnada em cada banca, em cada produto e em cada história contada, seja oficialmente preservada, garantindo sua perenidade para além da estrutura física.
Por que isso importa?
Contexto Rápido
- O Ver-o-Peso, fundado em 1625 como Casa de "Haver o Peso" para aferição e arrecadação fiscal, rapidamente se transformou no maior entreposto comercial da Amazônia, conectando a floresta ao mundo.
- Em 1977, o Iphan tombou o complexo como conjunto arquitetônico e paisagístico. A demanda atual dos feirantes é pelo reconhecimento de suas *atividades* centenárias (comércio de açaí, pescado, ervas) como patrimônio cultural imaterial.
- Belém, sede da COP30 em 2025, projeta-se internacionalmente, tornando a valorização integral de seus símbolos culturais, como o Ver-o-Peso e seus guardiões, um imperativo para a autenticidade e a imagem global da Amazônia.