Feminicídios em Santa Catarina: O Recrudescimento de uma Crise Silenciosa e Seus Efeitos Sociais
A escalada de feminicídios no estado revela um desafio contínuo à segurança feminina, exigindo uma análise aprofundada das raízes e consequências.
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Os alarmantes números de feminicídios em Santa Catarina, que contabilizaram 52 vítimas em 2025 e já somam 10 nos primeiros meses de 2026, transcendem a frieza das estatísticas; eles representam o recrudescimento de uma violência estrutural que desafia a segurança e a dignidade das mulheres em todo o estado. O pré-lançamento do "Mapa do Feminicídio" pelo Ministério Público de Santa Catarina (MPSC) e os documentários com relatos de familiares e amigos de vítimas, como o emblemático caso de Catarina Kasten, professora brutalmente assassinada em Florianópolis, evidenciam a urgência de uma análise que vá além da superfície dos dados.
A Lei do Feminicídio (Lei 13.104/2015), que tipifica o crime de "matar mulher por razões da condição do sexo feminino", foi um marco legislativo fundamental. Contudo, a persistência e a escalada dos casos – com mais de uma tentativa de feminicídio registrada por dia em 2026 – revelam que a mera existência da norma penal não é suficiente para conter a barbárie. O “porquê” por trás desses números reside em uma complexa intersecção de fatores: a cultura machista arraigada, a perpetuação de um ciclo de violência doméstica e familiar, e a persistente lacuna na identificação e intervenção proativa em situações de risco.
O caso de Catarina Kasten, estuprada e assassinada em uma trilha de Florianópolis enquanto se dirigia à aula de natação, ressoa como um alerta trágico e visceral. Não foi um evento isolado, mas a manifestação extrema de uma vulnerabilidade que muitas mulheres enfrentam diariamente. Esse crime não apenas ceifou uma vida promissora, mas também abalou profundamente a percepção de segurança em espaços públicos que deveriam ser intrinsecamente seguros, gerando uma onda de temor e insegurança que reverberou por toda a capital e além.
Ainda, o "como" essa realidade afeta o leitor é multifacetado e pernicioso. Para as mulheres, significa viver sob uma sombra constante de ameaça, exigindo vigilância redobrada, reavaliação de rotinas e, em casos extremos, a restrição de sua autonomia e liberdade de ir e vir. Para a sociedade como um todo, o feminicídio é um sintoma grave de disfunção social, que corrói os alicerces da convivência pacífica e democrática. Ele impõe custos sociais e econômicos imensuráveis, desde o trauma de famílias dilaceradas até a sobrecarga de sistemas de segurança e justiça. A impunidade percebida em alguns casos, ou a morosidade processual, como a ausência de data para o julgamento do assassino confesso de Catarina, mina a confiança nas instituições e a crença na efetividade da justiça.
É imperativo que a sociedade catarinense compreenda que combater o feminicídio transcende a esfera policial e jurídica. Exige um esforço contínuo de educação, conscientização e desconstrução de padrões de comportamento que naturalizam a violência de gênero. Somente assim poderemos aspirar a um futuro onde as mulheres possam exercer plenamente seus direitos e viver com a segurança e a liberdade que lhes são devidas.
Por que isso importa?
Contexto Rápido
- A Lei do Feminicídio (Lei 13.104/2015) alterou o Código Penal, qualificando o homicídio quando praticado "por razões da condição do sexo feminino", uma resposta à crescente violência de gênero.
- Santa Catarina registrou 52 feminicídios em 2025 e já contabiliza 10 casos nos primeiros meses de 2026, com uma média de mais de uma tentativa de feminicídio por dia no mesmo período, totalizando 42 tentativas em 70 dias.
- O caso da professora Catarina Kasten, brutalmente assassinada em uma trilha de Florianópolis, chocou o país e exemplifica a vulnerabilidade das mulheres em espaços que deveriam ser seguros, ressaltando a urgência da questão em nível regional.