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Casal de pastores celebra ataques ao Irã e defende guerra para proteger igreja e família
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É doutor em sociologia pela USP e fundador do Mapa Centrante
A pastora Ana Paula Valadão expressou grande emoção com a precisão dos ataques dirigidos ao Irã. A dramaticidade de suas declarações sobre o conflito, envolvendo Israel, os Estados Unidos e o Irã, foi acentuada pela maquiagem borrada ao redor dos olhos e pelo tom choroso de seus comentários no vídeo postado em sua conta do Instagram, que soma quase 4 milhões de seguidores.
Seus elogios à precisão dos mísseis de Israel e dos Estados Unidos foram confrontados com o ataque à escola que resultou na morte de pelo menos 50 meninas. Além disso, a pastora enfrenta críticas por conta da incoerência entre o ensinamento cristão do amor aos inimigos e a sua comemoração efusiva da morte do aiatolá Ali Khamenei.
O pastor Gustavo Bessa, cônjuge de Ana Paula Valadão, interveio na controvérsia, defendendo a ação militar que resultou na morte do líder supremo do Irã. Para fundamentar seu ponto de vista, Bessa citou o pastor luterano Dietrich Bonhoeffer, que se envolveu em uma conspiração para assassinar Adolf Hitler, e mencionou a difícil situação de cristãos que são alvos de extremistas islâmicos na Nigéria. Sua conclusão é que a guerra se torna legítima como meio de proteger a igreja e a família.
As opiniões do casal de pastores sobre o conflito em curso no Oriente Médio exemplificam o modo como uma parcela considerável, talvez a maior, dos evangélicos percebe a geopolítica global e o cenário político brasileiro.
É importante acentuar que as opiniões dos pastores sobre o conflito que ocorre a milhares de quilômetros do Brasil tem conexões diretas com a política nacional. Na segunda parte do vídeo, que celebra os ataques contra o Irã, a pastora Ana Paula se vale da linguagem bíblica para conclamar os brasileiros para que se levantem contra os poderes estabelecidos no país.
O alinhamento ideológico de Ana Paula e de seu marido é feito de um amontoado de termos teológicos cultivados durante décadas entre evangélicos brasileiros e estadunidenses. Esses termos funcionam como "senhas" para identificar quem está do lado de Deus, obviamente o deles, e quem está do lado do Diabo. Qualquer esforço para estabelecer nuances ou questionar pressupostos interpretativos é imediatamente classificado como ataque à fé.
Termos como Israel, Trump, família, cristãos perseguidos, islamismo, guerras e a volta de Jesus são ingredientes políticos e religiosos misturados em um caldeirão. Depois de um breve período de fervura no caldeirão fundamentalista, idealmente com o acompanhamento de música gospel, como a cantada por Ana Paula, a bebida estará pronta. É só beber para alucinar e enxergar o mundo cindido numa guerra entre o bem e o mal.
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Inegavelmente, a teocracia iraniana oprime mulheres, cristãos, gays e outras minorias. Mas e o regime da Arábia Saudita? Não faz o mesmo? Como a teologia de Valadão e companhia explica que Deus está usando Donald Trump para atacar o Irã e combater o mal enquanto faz negócios com Mohammed bin Salman, o ditador saudita?
Outro exemplo de embriaguez seletiva causada em quem bebe a poção fundamentalista é a aplicação do termo ditadura pela pastora Ana Paula. Emocionada, ela alerta no vídeo contra o perigo das ditaduras, mas não enxerga que o presidente Trump age como ditador ao não submeter o ataque ao Irã ao Congresso dos Estados Unidos, como manda a regra democrática constitucional.
No Irã, existem 35 igrejas ativas em Teerã (incluindo catedrais) e o Parlamento iraniano reserva duas cadeiras cativas para deputados cristãos (armênios e assírios). Como já ocorreu na Palestina, a ação dos Estados Unidos e de Israel tornarão a vida dos cristãos no Irã ainda mais difícil. Mas quem consegue explicar isso para quem bebe certezas no caldeirão fundamentalista?
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