Pesca Simbiótica em Laguna: Da Tradição ao Patrimônio Nacional, Entre a Urgência da Conservação e o Potencial Turístico
A elevação da colaboração entre botos e pescadores a patrimônio imaterial do Brasil redefine o futuro de uma prática milenar, colocando em pauta a preservação ambiental e novas avenidas para o desenvolvimento regional.
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A ancestral e notável parceria entre pescadores artesanais e botos em Laguna, Santa Catarina, ascende a um novo patamar de reconhecimento, sendo oficialmente chancelada como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Mais do que uma mera formalidade, esta elevação à esfera nacional consagra uma prática milenar que encapsula a inteligência adaptativa humana e a singularidade da interação com a vida selvagem. Esta simbiose, onde os botos estrategicamente conduzem cardumes de tainhas para as redes dos pescadores em troca de uma parte da captura, transcende o âmbito da subsistência, configurando-se como um intrincado saber-fazer transmitido por gerações.
A decisão do Iphan, tomada após deliberação em sua 112ª reunião do Conselho Consultivo, inscreve formalmente a prática no Livro dos Saberes, reforçando um reconhecimento que já existia em nível estadual desde 2018. Este ato não apenas garante a visibilidade para Laguna, já intitulada Capital Nacional dos Botos Pescadores, mas também lança luz sobre a fragilidade de um ecossistema e de uma espécie. Os botos envolvidos, majoritariamente da espécie boto-de-Lahille, encontram-se em um estado crítico, classificados pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) em 2025 como “em perigo de extinção”, com uma população global de meros 330 indivíduos, a maior parte residindo no litoral sul brasileiro.
O reconhecimento nacional, portanto, surge como um imperativo de valorização cultural e, simultaneamente, um alerta para a urgência da conservação. Ele posiciona essa prática única na vanguarda das discussões sobre sustentabilidade, patrimônio ambiental e a resiliência das comunidades costeiras. A complexidade dessa dança aquática, onde pescadores identificam e até nomeiam os botos com base em suas características e habilidades, sublinha a profundidade da conexão e a mutualidade de um relacionamento que resiste ao tempo e às ameaças.
Por que isso importa?
Contexto Rápido
- A prática da pesca colaborativa já era reconhecida como patrimônio imaterial de Santa Catarina pela Fundação Catarinense de Cultura (FCC) desde 2018, demonstrando um processo gradual de valorização.
- O boto-de-Lahille, espécie central a essa interação, foi reclassificado em 2025 pela IUCN como 'em perigo de extinção', com uma população global estimada em apenas 330 indivíduos, majoritariamente encontrados no litoral sul do Brasil.
- A cidade de Laguna, SC, se autodenomina a 'Capital Nacional dos Botos Pescadores', evidenciando a centralidade dessa interação para a identidade e economia local antes mesmo do reconhecimento nacional.