A ONU em Xeque: Candidato a Secretário-Geral Adverte para Irrelevância e Urge Reforma Profunda
Rafael Grossi, diretor da AIEA e postulante ao cargo máximo da Organização das Nações Unidas, critica a burocracia e a falta de proatividade, propondo um novo modelo para resgatar o multilateralismo global.
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A Organização das Nações Unidas (ONU), pilar fundamental da governança global desde meados do século XX, encontra-se em um momento crítico, confrontada com o risco iminente de se tornar irrelevante. Esse alerta contundente não parte de críticos externos, mas de um dos seus potenciais futuros líderes: Rafael Mariano Grossi, atual diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) e candidato ao posto de secretário-geral da ONU. Sua visão, apresentada à Folha, aponta para uma organização travada pela burocracia e pela perda de foco, exigindo uma reforma radical para restaurar sua capacidade de ação no cenário mundial.
Grossi, conhecido por sua abordagem dinâmica à frente da AIEA, especialmente na gestão de crises como a da usina nuclear de Zaporíjia na Ucrânia, defende uma ONU mais ágil e proativa. Em suas palavras, a entidade "perdeu o foco" e está sufocada por "quase 200 instâncias" e "disputas burocráticas", ecoando desafios enfrentados por governos. A proposta é clara: é preciso retornar ao realismo, onde o secretário-geral não age como um mero observador, mas como um resolvedor de problemas, utilizando todas as ferramentas da diplomacia com discernimento.
O debate sobre a eficácia da ONU transcende as campanhas eleitorais internas. Ele reflete uma crise mais ampla no multilateralismo, onde potências globais frequentemente preferem ações unilaterais ou blocos regionais a soluções coordenadas. A capacidade da ONU de mediar conflitos, promover o desenvolvimento sustentável e defender os direitos humanos está diretamente ligada à sua percepção de autoridade e imparcialidade. O exemplo do Irã, onde a AIEA enfrenta obstáculos para a inspeção de seu programa nuclear e a verificação de urânio enriquecido a 60%, ilustra as tensões geopolíticas que desafiam as agências internacionais e a própria ONU.
A eleição para o próximo secretário-geral, que pode ocorrer já no próximo mês, ganha contornos de um plebiscito sobre o futuro do multilateralismo. A escolha entre Grossi e outros candidatos de peso, como Michelle Bachelet e Rebeca Grynspan, não definirá apenas uma liderança, mas o próprio caminho que a ONU poderá seguir para evitar o abismo da irrelevância. A questão central é se a organização conseguirá se reinventar para enfrentar os desafios de um mundo cada vez mais fragmentado e polarizado, ou se permanecerá presa a estruturas que não mais correspondem à urgência das crises contemporâneas.
Por que isso importa?
Contexto Rápido
- Fundada em 1945 após a Segunda Guerra Mundial, a ONU surgiu como a principal esperança para a paz e a cooperação global, sucedendo a ineficaz Liga das Nações.
- A Organização das Nações Unidas hoje congrega 193 estados-membros, mas sua estrutura inchada e as "quase 200 instâncias" burocráticas, como apontado por Grossi, frequentemente geram impasses e paralisia em um cenário de crescente crise do multilateralismo.
- A incapacidade ou lentidão da ONU em resolver conflitos como na Ucrânia e no Oriente Médio, ou em coordenar respostas a desafios globais como pandemias e mudanças climáticas, mina sua credibilidade e ameaça a estabilidade mundial.