Privatizações de Sabesp e EMAE Sob o Holofote: MP-SP Desvenda Elos entre Banco Master e Equatorial
Uma análise aprofundada revela como intrincados arranjos financeiros e a sobreposição de gestores em conselhos de administração levantam questionamentos cruciais sobre a integridade dos processos de desestatização de ativos paulistas.
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O Ministério Público de São Paulo (MP-SP) abriu análise de uma representação que tece uma complexa teia de conexões entre o Banco Master, a Equatorial Energia e os processos de desestatização da Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) e da Empresa Metropolitana de Águas e Energia (EMAE). O documento, protocolado por um deputado estadual, aponta indícios de arranjos financeiros intrincados e possíveis favorecimentos que teriam culminado na venda de ativos públicos essenciais por valores questionáveis e em um ambiente de concorrência restrita.
A representação detalha como figuras-chave transitaram por conselhos de administração de empresas diretamente envolvidas. Carlos Piani, por exemplo, presidiu a Ambipar durante sua notável valorização de 800%, utilizada como lastro para o Fundo Phoenix na aquisição da EMAE, e simultaneamente liderou o conselho da Equatorial durante a privatização da Sabesp, vindo a assumir a presidência da própria Sabesp privatizada. Essa sequência, que culminou na Sabesp adquirindo a EMAE posteriormente, levanta questões sobre o retorno de ativos ao controle de agentes previamente envolvidos em sua estruturação financeira.
A privatização da Sabesp, avaliada em mais de R$ 56 bilhões na época, foi concluída com a Equatorial como única proponente para o bloco de controle, com um deságio que especialistas estimaram em 44% abaixo do preço de mercado. Paralelamente, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) já havia investigado a valorização expressiva das ações da Ambipar, que a representação aponta como um possível caso de formação artificial de preço e simulação de liquidez, prática tipificada como manipulação de mercado. O Banco Master é identificado como peça central na arquitetura financeira de ambas as operações, intermediando financiamentos e participando de instrumentos societários que, segundo o documento, poderiam mascarar a real cadeia de comando econômico. A apuração do MP-SP visa desvendar a profundidade dessas conexões e as possíveis implicações para a integridade do patrimônio público e do mercado financeiro.
Por que isso importa?
Para o cidadão, a privatização de empresas como a Sabesp e a EMAE impacta diretamente a qualidade e o custo de serviços essenciais como água, esgoto e energia. Se as alegações de valores subavaliados ou processos com concorrência duvidosa se confirmarem, há uma perda potencial de valor para o erário e, consequentemente, para o investimento em outras áreas públicas. A conexão entre a gestão de fundos, bancos e grupos empresariais na aquisição de ativos estratégicos, especialmente quando figuras-chave transitam entre conselhos das partes vendedora e compradora, levanta sérias questões sobre governança corporativa e conflitos de interesse que podem comprometer a otimização dos recursos públicos e a justa formação de preços. Este cenário exige uma análise aprofundada das estruturas de fiscalização e das salvaguardas necessárias para garantir que as desestatizações beneficiem, de fato, a coletividade, e não apenas um grupo restrito de participantes do mercado.
Contexto Rápido
- O histórico de privatizações de grandes estatais brasileiras, frequentemente alvo de questionamentos sobre transparência e precificação, como observado em casos passados de setores como telecomunicações e energia.
- A valorização das ações da Sabesp em mais de 120% após a privatização (de R$ 67 para R$ 152,50 em menos de dois anos, até fevereiro de 2026), em contraste com o deságio de 44% na venda do bloco de controle, indicando um potencial subpreço.
- A crescente atuação de fundos de investimento e bancos como articuladores-chave em grandes transações de fusões e aquisições e desestatizações, exigindo escrutínio redobrado sobre a governança e a conformidade.