Reativação de Sa-Nur: Israel avança na Cisjordânia, desafiando a ordem internacional
O retorno oficial de um assentamento evacuado há duas décadas sinaliza uma escalada na política israelense, com profundas implicações para a paz regional e o direito internacional.
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A reabertura oficial do assentamento israelense de Sa-Nur, na Cisjordânia ocupada, após 21 anos de sua evacuação, é um marco com repercussões profundas. Longe de ser um mero ato de retorno, a celebração liderada por ministros como Bezalel Smotrich e Israel Katz simboliza uma correção histórica para a política de desengajamento de 2005 e, mais provocativamente, um declarado "enterro da ideia de um Estado Palestino". Este evento não se restringe a uma localidade específica; ele é parte integrante de uma estratégia governamental israelense de expansão de assentamentos que tem acelerado notavelmente.
Desde a formação da atual coalizão de direita em 2022, sob a liderança do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, a política de solidificação da presença na Cisjordânia tem ganhado ímpeto. A aprovação de 126 novas unidades habitacionais em Sa-Nur e a legalização de outros postos avançados, como Ganim e Kadim, são manifestações dessa diretriz. Dados recentes apontam que já vivem cerca de 700.000 colonos na Cisjordânia e Jerusalém Oriental, um número em constante ascensão que desafia abertamente o direito internacional, que considera esses assentamentos ilegais. A intensificação dessa expansão, especialmente após os eventos de 7 de outubro de 2023, é acompanhada por um preocupante aumento na violência de colonos, como evidenciado por relatórios da UNRWA, que descrevem março como um dos meses mais letais em registros. A decisão em Sa-Nur, portanto, não é um incidente isolado, mas um elo crucial em uma cadeia de eventos que redefinem o futuro dos territórios palestinos e a dinâmica do conflito regional.
Por que isso importa?
O "como" essa realidade afeta a vida do cidadão comum é multifacetado:
- Instabilidade Regional e Global: A escalada de tensões no Oriente Médio não é um problema isolado. Ela tem um efeito cascata, podendo influenciar a segurança energética global, desestabilizar rotas comerciais essenciais e gerar ondas migratórias, impactando diretamente economias e sociedades em continentes distantes. Um conflito regional aprofundado pode, inclusive, realinhar alianças geopolíticas, com consequências imprevisíveis.
- Erosão do Direito Internacional: A violação contínua de convenções e resoluções da ONU, que classificam os assentamentos como ilegais, enfraquece a estrutura legal global que é fundamental para a resolução pacífica de disputas e a proteção dos direitos humanos em qualquer parte do mundo. Isso levanta sérios questionamentos sobre a eficácia de organismos internacionais e a aplicação da justiça universal, afetando a crença em um sistema global baseado em regras.
- Princípios de Direitos Humanos e Democracia: A expropriação de terras palestinas e o aumento da violência de colonos afetam diretamente a segurança, a dignidade e a liberdade de um povo, colocando em xeque os princípios de autodeterminação, igualdade e respeito aos direitos humanos. Para sociedades que prezam por esses valores, as ações em Sa-Nur e a política de assentamentos representam um alerta contundente sobre a fragilidade dos direitos fundamentais em contextos de ocupação e conflito, ecoando debates sobre justiça social e ética global.
Contexto Rápido
- O assentamento de Sa-Nur foi evacuado em 2005 como parte da política de desengajamento unilateral de Israel, que também incluiu a saída de Gaza. Sua reabertura reverte essa decisão histórica.
- Atualmente, cerca de 700.000 colonos vivem na Cisjordânia e Jerusalém Oriental. Desde a formação do atual governo israelense em 2022, 104 novos assentamentos ou postos avançados foram aprovados, com uma aceleração notável após outubro de 2023.
- Esta expansão desafia o direito internacional, eleva as tensões regionais e põe em risco a estabilidade global, impactando diretamente as relações diplomáticas e a busca por uma solução duradoura para o conflito israelo-palestino.