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Irã lança ataque contra múltiplos alvos na região e Europa amplia esforços de defesa em 6º dia de guerra
Oglobo
As Forças Armadas do Irã voltaram a bombardear múltiplos alvos no Oriente Médio nesta quinta-feira, em um momento em que a guerra contra EUA e Israel chega ao sexto dia com risco de crescer ainda mais em abrangência. Enquanto países do Golfo emitiram uma declaração conjunta exigindo o fim dos bombardeios indiscriminados na região e nações estrangeiras reforçaram esforços para retirar cidadãos da zona de conflito, o Azerbaijão acusou Teerã de disparar drones contra um aeroporto civil e prometeu retaliação. A pressão sobre a nação persa também aumenta com os movimentos da Europa para reforçar suas capacidades defensivas no Mediterrâneo e no Golfo, em um desdobramento com possíveis implicações para a guerra de estoques balísticos entre os lados inimigos.
A Guarda Revolucionária iraniana, que alardeou ter o "controle total" do Estreito de Ormuz, anunciou ter atingido com um míssil um navio-petroleiro americano no norte do Golfo Pérsico. A embarcação teria ficado "em chamas", segundo comunicado exibido na TV estatal iraniana, sem dar mais detalhes sobre o caso. As forças militares também dispararam drones contra uma base militar americana em Erbil, no nordeste do Iraque, onde também foram renovados ataques contra grupos curdos.
"O quartel-general das forças agressoras americanas em Erbil, no Iraque, foi atacado pelos drones do Exército", indicaram as Forças Armadas iranianas em um comunicado transmitido pela TV estatal.
A campanha de bombardeios iraniano tem mirado com particular regularidade o Curdistão iraquiano, onde milícias armadas da maior etnia sem pátria do mundo estariam sendo sondadas pela Agência Central de Inteligência dos EUA (CIA, na sigla em inglês) para se somarem à ofensiva contra o regime dos aiatolás e criarem uma frente de ataque por terra. A Casa Branca negou planos neste sentido na quarta-feira, mas foi confirmado que o presidente americano, Donald Trump, manteve conversas com lideranças curdas nos últimos dias. Fontes de inteligência sugeriram que o plano existe e citaram-no como parte de uma estratégia mais ampla para provocar uma mudança de regime, da qual também faz parte a destruição do aparato de repressão de Teerã.
— Grupos separatistas não devem imaginar que soprou um novo vento e tentar agir — advertiu o chefe do Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irã, Ali Larijani, após o ataque, que um comunicado militar afirmou ter envolvido três mísseis contra bases militares.
Irã é acusado de ter lançado drone que atingiu aeroporto do Azerbaijão
A questão dos curdos confronta frontalmente os interesses de um outro ator que foi arrastado para a crise que se alastra: a Turquia. O país, que virou um pivô de uma disputa para o envolvimento da Otan na guerra, após a alegação de que um projétil iraniano teria sido disparado em sua direção — fato que poderia resultar no acionamento da cláusula de defesa coletiva da aliança atlântica —, afirmou que está monitorando de perto as informações sobre o fomento de grupos armados curdos como parte do conflito. Ancara considera muitos deles, incluindo o influente Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), que reivindicam um Estado soberano, como terroristas.
"As atividades de grupos (...) que promovem o separatismo étnico afetam negativamente não apenas a segurança do Irã, mas também a paz e a estabilidade geral da região", disse um comunicado do Ministério da Defesa turco nesta quinta. "A Turquia apoia a integridade territorial dos Estados vizinhos, não a sua fragmentação".
Ancara também condenou Teerã nesta quinta-feira, após um incidente com supostos drones iranianos implicarem o Azerbaijão — país com capacidades militares relevantes na Ásia Central — no conflito. O governo de Baku prometeu retaliação contra o Irã após os projéteis invadirem o espaço aéreo do país, e ao menos um atingir um aeroporto civil em Nakhichevan, um enclave situado entre Armênia, Turquia e Irã. Autoridades da República Islâmica negaram participação no incidente horas depois.
À medida que a guerra se prolonga e se expande geograficamente, a Europa começa a ampliar sua presença na crise internacional. O Reino Unido, a União Europeia e países do bloco individualmente tomaram parte em medidas militares e diplomáticas que podem ter uma repercussão direta na distribuição de forças no campo-de-batalha.
Mesmo sem uma un enviaram navios-de-guerra para auxiliar nas atividades de interceptação aérea em caso de novos ataques à ilha mediterrânea, Mediterrâneo e na região do Golfo Pérsico, diante da onda de mísseis iranianos, que chegaram a ser disparados contra uma base militar britânica em Chipre — estado-membro do bloco europeu.
Itália e Espanha enviaram navios-de-guerra para auxiliar nas atividades de interceptação aérea em caso de novos ataques à ilha mediterrânea, cuja proteção já havia sido reforçada por Londres e pela Grécia. O Reino Unido, por sua vez, anunciou o envio de quatro caças Typhoon para o Catar.
— Estamos enviando quatro aviões Typhoon adicionais para se juntar a nosso esquadrão no Catar e reforçar nossas operações defensivas neste país e em toda região — declarou o premier Keir Starmer em coletiva de imprensa.
Mesmo que a entrada europeia se restringisse às anunciadas ações defensivas, o impacto provocado pelas baterias antiaéreas europeias nas atividades de interceptação dos projéteis iranianos, sobretudo nos países do Golfo — que tiveram algumas das principais capitais duramente atacadas nesta quinta-feira, como Abu Dhabi (Emirados Árabes), Doha (Catar) e Manama (Bahrein) —, ofereceria uma vantagem a EUA e Israel em uma disputa simultânea aos alvos atingidos em solo: a batalha para manter os arsenais abastecidos. Analistas afirmaram que o ritmo da dinâmica ataque X interceptação poderiam expor um dos lados do conflito. Com o apoio europeu, a balança fica um pouco mais favorável a EUA e Israel.
Para além da perspectiva defensiva, os europeus se somaram a frentes de pressão diplomática e apoio logístico. A França anunciou que autorizou aviões americanos de apoio a utilizarem suas bases no Oriente Médio, após receberem garantias dos aliados que os equipamentos não estariam usados contra o território do Irã diretamente — o que, ainda assim, aumenta as plataformas para as operações americanas.
Ministros da UE e dos países-membro do Conselho de Cooperação do Golfo (CCG) emitiram uma nota conjunta, instando o Irã a cessar imediatamente seus ataques "indiscriminados" contra os países do Golfo, alertando que os ataques ameaçam a segurança internacional, em texto divulgado após uma reunião por videoconferência.
As forças iranianas afirmaram também ter lançado um bombardeio contra o Aeroporto Internacional Ben Gurion, em Tel Aviv, uma infraestrutura chave para os planos de reabertura do espaço aéreo civil, que autoridades israelense esperam dar início no domingo. Sirenes tocaram durante a noite e ao longo do dia de norte a sul do país, incluindo em Jerusalém.
O Exército iraniano disse ainda ter usado drones contra posições militares em Tel Aviv e no norte do Estado judeu, incluindo uma base de radares. Israel não confirmou nenhum impacto de grande magnitude até o momento. A agência de notícias oficial do Irã, IRNA, afirmou por outro lado que o número de mortos no lado de Teerã do conflito subiu para 1.230.
Milhares de pessoas começam a conseguiram deixar a região, após a operação militar israelense-americana levar ao maior distúrbio no tráfego aéreo civil desde a pandemia da Covid-19. O Canadá anunciou um plano de retirada dos cidadãos de Israel por ônibus até a fronteira com o Egito, e dos que estão no Líbano por meio de voos. Os EUA realizaram um primeiro voo de repatriação.
O Reino Unido anunciou um plano para trabalhar com companhias aéreas para retirar seus cidadãos, enquanto países incluindo França, Alemanha e Itália começam a organizar seus próprios voos. (Com AFP)
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