Desenrola: Por Que o 'Bom Pagador' Aguarda e Qual o Impacto Oculto na Economia
Enquanto o programa de renegociação para inadimplentes avança, a ausência de um plano claro para quem mantém as contas em dia revela tensões e riscos que moldam o futuro financeiro do brasileiro.
Reprodução
O programa Desenrola Brasil 2.0, voltado para a renegociação de dívidas atrasadas, demonstra um início promissor. Em apenas duas semanas, mais de um milhão de pessoas foram beneficiadas, com R$ 10 bilhões em débitos renegociados. Esse movimento, que ganha tração com o avanço do prazo governamental, representa um alívio financeiro significativo para milhões de famílias e um descompressor para o sistema bancário, que vê suas carteiras de crédito 'sujas' serem saneadas com garantias do governo.
Contudo, a narrativa do sucesso esbarra em uma lacuna notável: a falta de progresso no tão falado "Desenrola para quem ainda não está enrolado". As respostas evasivas do ministro da Fazenda, Dario Durigan, sobre o andamento dessa iniciativa, que prometia beneficiar os bons pagadores, não são apenas um atraso burocrático, mas sim um sinal inequívoco de um impasse profundo. A ausência de um cronograma e, mais importante, de um modelo de adesão para os adimplentes, indica que o governo está diante de um desafio complexo, que exigirá mais do que "tirar um coelho da cartola" para ser resolvido.
Este dilema não é trivial. A promessa de um programa para adimplentes não é apenas uma questão de equidade, mas uma necessidade para mitigar o que economistas chamam de "risco moral". Ao oferecer benefícios apenas para quem está inadimplente, o sistema cria um incentivo perverso, onde o cumprimento pontual das obrigações pode ser percebido como uma desvantagem, estimulando a irresponsabilidade financeira na expectativa de futuras anistias ou renegociações facilitadas.
Por que isso importa?
Além disso, a hesitação em implementar o programa para adimplentes tem raízes na resistência bancária. Como explicitou o presidente da Febraban, Isaac Sidney, a renegociação de dívidas adimplentes fere a "racionalidade econômica" dos bancos, reduzindo a rentabilidade de operações que já estão saudáveis. Essa resistência evidencia o poder de barganha das instituições financeiras e sugere que, sem um forte incentivo governamental, o mercado de crédito continuará a operar com lógicas que priorizam o lucro bancário em detrimento de uma distribuição mais equitativa dos benefícios. O impacto para o leitor se traduz em um mercado de crédito que talvez continue menos competitivo e mais caro para os bons pagadores, que ficam sem uma ferramenta que poderia pressionar as taxas de juros para baixo.
Finalmente, o "risco moral" não é apenas uma teoria econômica, mas uma realidade tangível para o consumidor. A percepção de que a inadimplência pode ser "premiada" com renegociações favoráveis, enquanto a adimplência não, pode corroer a confiança no sistema e, em casos extremos, levar alguns a reconsiderar a disciplina financeira. Embora o objetivo do governo seja aliviar o endividamento e estimular a economia, o modelo atual do Desenrola, ao focar apenas nos inadimplentes e esbarrar na resistência para estender o benefício, gera um desequilíbrio que pode ter consequências duradouras para a cultura de crédito e o planejamento financeiro individual do brasileiro.
Contexto Rápido
- O programa Desenrola Brasil 1.0, implementado anteriormente, já demonstrou o potencial de alívio financeiro e saneamento para milhões de brasileiros endividados, abrindo caminho para o atual ciclo.
- A inadimplência na "indústria bancária" brasileira atingiu 5,5% no primeiro trimestre deste ano, o maior índice desde o período de recessão de 2015-2017. Isso resultou em cerca de R$ 50 bilhões provisionados pelos cinco maiores bancos para devedores duvidosos no mesmo período.
- Novas regras de provisionamento do Banco Central, formalizadas em 2025 e com efeitos plenos em 2026, passaram a exigir que os bancos cubram perdas esperadas desde a contratação do financiamento, e não apenas para dívidas com mais de 90 dias de atraso, impactando diretamente as margens de lucro e a aversão ao risco das instituições financeiras.