A 'Recuperação Milagrosa' da Coreia do Norte: Como Kim Jong-un Consolida Poder em Meio à Crise Global
Pyongyang exibe sinais de recuperação econômica sob Kim Jong-un, mas essa “transformação” levanta questões sobre geopolítica, controle estatal e as reais condições de vida da população.
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Em um paradoxo que desafia décadas de crise humanitária e isolamento, a Coreia do Norte, sob a liderança de Kim Jong-un, declara uma “transformação milagrosa” de sua economia. O país, onde a Organização das Nações Unidas (ONU) estima que 45% da população – cerca de 11 milhões de pessoas – sofre de desnutrição, parece ter encontrado um novo fôlego após os anos mais sombrios da pandemia de COVID-19.
As sanções internacionais, que antes visavam estrangular o programa nuclear do regime, foram flexibilizadas ou menos rigorosamente aplicadas, enquanto o país estreitava laços estratégicos com a Rússia de Vladimir Putin. Este cenário permitiu que, pela primeira vez em anos, a economia norte-coreana desse sinais de revitalização. Estimativas do Banco Central da Coreia do Sul apontam para um crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) de 3,7% em 2024, a maior expansão em oito anos, levando especialistas como Stephen Haggard da Universidade da Califórnia a afirmar que “o regime está mais rico do que nunca”.
Os pilares dessa recuperação são multifacetados. A Coreia do Norte tem sido uma fonte crucial de armamentos para a Rússia em seu conflito com a Ucrânia, além de intensificar o comércio com a China. Internamente, o regime apertou o controle sobre os mercados informais, centralizando atividades econômicas e garantindo que os fluxos de capital beneficiem o Estado. As evidências dessa mudança, embora veladas pelo hermetismo do país, são visíveis em Pyongyang: ruas mais iluminadas, elevadores em funcionamento, e até mesmo a proliferação de telefones celulares e aplicativos de táxi, indicando um aumento limitado do consumo e da riqueza na elite.
Contudo, essa aparente bonança não se traduz em melhoria generalizada. Longe da capital, as duras condições de vida persistem, e as violações sistemáticas dos direitos humanos continuam sendo uma realidade brutal. A “transformação” de Kim Jong-un, impulsionada por uma geopolítica em reconfiguração e pela exploração de crises globais, é, em essência, uma estratégia de fortalecimento do Estado e de sua capacidade militar, culminando na consolidação como potência nuclear. A aproximação com a Rússia, que resultou em um pacto de defesa mútua em junho de 2024, injeta recursos e tecnologia que impulsionam setores-chave como mineração e indústria pesada, solidificando o poder do regime, mas mantendo a maioria da população à margem do que o líder chama de “milagre”.
Por que isso importa?
Segundo, a segurança global: a capacidade de Pyongyang de driblar sanções e fortalecer seu aparato militar, em parte financiando a guerra na Ucrânia, estabelece um precedente perigoso. O PORQUÊ é que isso desincentiva o cumprimento de acordos internacionais e incentiva outros regimes autoritários a buscar o mesmo caminho de proliferação. O COMO isso impacta é que a ameaça de conflitos armados se torna mais concreta, com riscos de escalada nuclear, o que inevitavelmente gera um clima de insegurança global que afeta investimentos, viagens e a própria percepção de estabilidade para todos. A venda de armas para a Rússia, por exemplo, prolonga a guerra na Europa, com todas as suas consequências humanitárias e econômicas indiretas.
Por fim, a ética e os direitos humanos: a “melhora” econômica se concentra na elite e no poder estatal, não na qualidade de vida da maioria da população. O PORQUÊ é que o modelo de governança norte-coreano prioriza a sobrevivência e o fortalecimento do regime acima de tudo. O COMO isso impacta é que, como cidadãos globais, somos confrontados com a realidade de que o “progresso” econômico de alguns pode ser construído sobre uma base de repressão e sofrimento em massa, desafiando os valores de dignidade humana e justiça que pautam sociedades democráticas. Essa realidade complexa força uma reflexão sobre a eficácia da diplomacia e das sanções, e como as crises globais podem ser exploradas para consolidar regimes que perpetuam a injustiça, moldando o futuro da governança e da ética global.
Contexto Rápido
- A Coreia do Norte enfrentou a 'Marcha Árdua' (Grande Fome) entre 1994 e 1998, uma crise humanitária que resultou em centenas de milhares de mortes, evidenciando a fragilidade de sua economia e a gestão estatal.
- Com um crescimento estimado de 3,7% do PIB em 2024, o maior em oito anos, a economia norte-coreana mostra sinais de revitalização, contrastando com a persistente desnutrição que afeta 45% de sua população.
- A aliança estratégica com a Rússia, evidenciada pelo fornecimento de armamentos para a guerra na Ucrânia e um pacto de defesa mútua, reconfigura a dinâmica geopolítica global, desafiando a ordem internacional e a eficácia das sanções.