O Fim do Ranking de Periódicos Chinês e o Desafio da Avaliação Científica
A suspensão de uma ferramenta central para a academia chinesa expõe tensões e busca por novos paradigmas na mensuração da qualidade da pesquisa, com ecos internacionais.
Reprodução
A comunidade científica global observa com atenção a recente decisão da Biblioteca Nacional de Ciência da Academia Chinesa de Ciências (CAS) de cessar a publicação de seu influente ranking de periódicos, conhecido como Tabela de Partição de Periódicos da CAS. Por mais de duas décadas, essa ferramenta foi um pilar fundamental no sistema de avaliação de pesquisas da China, moldando desde decisões de contratação e alocação de financiamento até promoções acadêmicas. Sua súbita interrupção, que pegou muitos pesquisadores de surpresa, marca um divisor de águas crucial para o ecossistema científico do país, gerando incerteza sobre os próximos passos.
Originalmente concebida para auxiliar pesquisadores na identificação da qualidade de periódicos, a Tabela da CAS gradualmente transcendia sua função inicial, tornando-se uma métrica quase onipotente. A pressão para publicar em periódicos de "Tier 1" do ranking muitas vezes suplantava o mérito científico intrínseco de uma pesquisa. Como aponta Xinchen Gu, ecologista da Universidade de Tecnologia do Sul da China, a avaliação se tornou menos sobre resolver um problema real ou fazer uma contribuição original e mais sobre a classificação do veículo de publicação. Essa distorção, que até levou a críticas sobre a reclassificação de periódicos internacionalmente reconhecidos, revelou as fragilidades de um sistema excessivamente dependente de uma única métrica.
A descontinuação oficial da Tabela da CAS não significou, contudo, o desaparecimento imediato da metodologia. Quase simultaneamente, uma nova iniciativa, o Xinrui Scholar, operada por uma organização privada e utilizando a mesma metodologia e equipe original da CAS, emergiu. Contudo, pairam dúvidas significativas sobre a verdadeira independência e a capacidade do Xinrui Scholar de replicar a influência da lista da CAS. A busca da China por um sistema de avaliação de periódicos que seja globalmente reconhecido e utilizado, com maior transparência e independência governamental, é um dos fatores que motivaram essa transição.
A crítica à falta de transparência nos indicadores internos da CAS e a percepção de que o ranking frequentemente anulava o mérito científico foram catalisadores para a mudança. Para jovens cientistas, a dependência desse sistema para ascender na carreira era particularmente desafiadora. A cessação da Tabela da CAS, portanto, representa uma oportunidade de introspecção para o sistema científico chinês, e serve como um estudo de caso global sobre a complexidade de medir a qualidade da pesquisa e a necessidade de transcender métricas simplistas em favor de uma avaliação mais holística e justa. O desafio agora reside em construir um novo paradigma que realmente fomente a excelência e a inovação.
Por que isso importa?
Contexto Rápido
- O Impact Factor (Fator de Impacto) e outras métricas bibliométricas têm dominado a avaliação acadêmica por décadas, mas enfrentam crescentes críticas por suas limitações e o risco de distorcer prioridades de pesquisa.
- A China emergiu como uma potência global em pesquisa e desenvolvimento, com um volume crescente de produção científica. A forma como seu sistema avalia e classifica essa produção tem ramificações internacionais significativas.
- Debates globais sobre a reforma da avaliação de pesquisa, exemplificados pela Declaração de São Francisco sobre Avaliação de Pesquisa (DORA), que advoga por uma diversificação de métricas e um foco maior na qualidade e impacto real da pesquisa, em vez de métricas de periódicos.