Algoritmos da Misoginia: Como a Tecnologia Impulsiona um Retrocesso Social
Novas pesquisas revelam que a Geração Z está mais exposta e suscetível a crenças machistas, impulsionadas pela lógica de engajamento das plataformas digitais.
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A recente abertura de um inquérito pela Polícia Federal para investigar a trend “Caso ela diga não” no TikTok, que incita a violência contra mulheres, é mais do que um incidente isolado. É um sintoma alarmante de como a arquitetura das redes sociais e seus algoritmos de engajamento estão catalisando a disseminação de narrativas misóginas e violentas no ambiente digital. Esta tendência de conteúdo, que simula reações agressivas à rejeição feminina, reflete uma preocupante virada geracional observada em estudos globais.
Pesquisas recentes, como a realizada pela Ipsos em parceria com o King's College de Londres, revelam que homens da Geração Z demonstram uma propensão significativamente maior a endossar crenças patriarcais, como a de que esposas devem “obedecer” seus maridos, em comparação com gerações anteriores. Essa reversão de atitudes que se pensava estarem em declínio é atribuída, por especialistas como a professora Heejung Chung, do King's College, ao “enorme papel” das redes sociais. Nessas plataformas, influenciadores e comunidades digitais exploram sentimentos de desempoderamento, reafirmando domínios masculinos frequentemente através de conteúdo que glorifica ou simula a violência.
Este fenômeno encontra terreno fértil na chamada “machosfera” e em grupos “red pill”, que proliferam o ódio e a subjugação feminina sob o disfarce de autoajuda. A velocidade com que tais conteúdos viralizam, impulsionada por algoritmos que priorizam o engajamento sem um escrutínio ético aprofundado do conteúdo, transforma as plataformas em ecossistemas propícios à radicalização de visões e à banalização de atos violentos. O trágico caso de estupro coletivo no Rio de Janeiro, com o subsequente deboche dos agressores e a associação à frase “regret nothing” — emblema da machosfera —, evidencia a brutal intersecção entre o digital e o mundo real, revelando a profunda influência dessas comunidades online na vida cotidiana.
Por que isso importa?
Contexto Rápido
- A ascensão das comunidades online da "machosfera" e grupos "red pill" tem disseminado ideologias misóginas globalmente nos últimos anos.
- Um estudo global da Ipsos/King's College de Londres revela que 31% dos homens da Geração Z (1996-2012) acreditam que esposas devem 'obedecer' seus maridos, versus 13% dos Baby Boomers (1945-1965).
- A lógica de engajamento das redes sociais, com algoritmos que priorizam a viralização, atua como vetor principal para a amplificação e normalização de conteúdos misóginos e violentos.