Desenrola 2.0: O Veredito Econômico entre Lucro Bancário e o Risco de Uma Nova Inadimplência
Enquanto grandes bancos projetam ganhos significativos com a renegociação de dívidas, analistas ponderam os incentivos de curto prazo versus o perigo iminente de um novo ciclo de endividamento no Brasil.
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A esfera financeira brasileira testemunha um fenômeno paradoxal: os quatro maiores bancos do país registraram um lucro combinado de quase R$ 108 bilhões em 2025, mesmo com a inadimplência atingindo a marca alarmante de 70 milhões de negativados. Nesse cenário, a chegada do Desenrola 2.0, programa de renegociação de dívidas do governo, reacende o debate sobre a sustentabilidade do crédito e seus impactos estruturais.
Para as instituições financeiras, a medida apresenta um horizonte de ganhos tangíveis. Especialistas como Maurício Bento, mestre em economia, destacam o "impacto contábil positivo", especialmente no curto prazo. A lógica é clara: a maior parte das dívidas renegociadas já foi reconhecida como perda nos balanços, com provisões que chegam a 100% do valor devido. Assim, qualquer recuperação se traduz diretamente em lucro. Fernanda Rocha, da Monte Bravo, complementa que o incentivo governamental e a possibilidade de uso do FGTS amplificam esse benefício.
A abrangência do programa também foi ampliada, elevando o limite de renda para até R$ 8.105, mirando uma parcela maior da classe média, historicamente pressionada pelo custo elevado do crédito. Essa injeção de capital na economia pode reverberar positivamente em setores como varejo e construção civil, que dependem diretamente da capacidade de consumo e da qualidade do crédito. O Citi Bank estima que o Desenrola 2.0 pode beneficiar até 20 milhões de famílias, atacando um estoque de dívidas que varia entre R$ 43 bilhões e R$ 64 bilhões.
Contudo, a análise aprofundada revela complexidades. A primeira edição do Desenrola não conseguiu conter o avanço da inadimplência, que continuou a crescer. Essa experiência levanta a preocupação com a reincidência, ou seja, a possibilidade de muitos dos renegociadores voltarem a se endividar em um futuro próximo, talvez em 18 meses, como alerta Marcus Novais da Private Investimentos. Danilo Coelho, economista, aponta que, enquanto os grandes bancos possuem musculatura para diluir eventuais novas inadimplências, instituições menores podem sofrer um impacto mais severo na qualidade de suas carteiras de crédito. Além disso, há o risco para o Tesouro Nacional, que assume parte significativa do ônus da renegociação, podendo arcar com uma conta substancial caso o programa não surta o efeito desejado de longo prazo na educação financeira dos devedores.
Por que isso importa?
Contexto Rápido
- Os quatro maiores bancos brasileiros registraram lucro de quase R$ 108 bilhões em 2025, coexistindo com mais de 70 milhões de negativados no país.
- O Desenrola 2.0 pode beneficiar até 20 milhões de famílias, atacando um estoque de dívidas de R$ 43 bilhões a R$ 64 bilhões, com limite de renda ampliado para R$ 8.105.
- Apesar do alívio financeiro imediato e o estímulo ao consumo, há uma preocupação crescente com a recorrência da inadimplência e o impacto diferenciado em bancos de menor porte, além do risco fiscal ao Tesouro Nacional.