A Nova Ordem Sul-Americana: Como a Segurança Redefine a Política e o Voto no Continente
A prioridade inquestionável na agenda de segurança pública está remodelando o panorama eleitoral e social da América Latina, com profundas implicações para a governança e a vida cotidiana dos cidadãos.
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Um estudo recente da Universidade de Brasília (UnB), conduzido pelo cientista político Murilo Medeiros, lança luz sobre uma tendência inegável e transformadora na América Latina: desde 2023, a segurança pública emergiu como o pilar central em 70% das disputas eleitorais. Das 19 eleições analisadas, 13 coroaram líderes que articularam suas campanhas em torno da promessa de restaurar a ordem e combater o crime organizado, convertendo pleitos em verdadeiros referendos sobre a capacidade do Estado de garantir a segurança.
O "porquê" dessa guinada é multifacetado. A violência urbana, a atuação crescente de facções criminosas e a percepção de fragilidade estatal diante desses desafios alimentam uma demanda popular por respostas contundentes. Candidatos que abraçam a retórica da "tolerância zero", propondo endurecimento penal, fortalecimento das forças de segurança e a construção de megaprisões, como visto em El Salvador sob Nayib Bukele e replicado em vitórias recentes na Colômbia e Costa Rica, capitalizam essa insatisfação profunda. Essa abordagem ressoa com um eleitorado exausto da insegurança e cético quanto às soluções tradicionais.
O "como" essa mudança afeta o leitor é mais complexo e vai além do simples ato de votar. A prevalência da pauta de segurança implica uma reorientação massiva de recursos públicos. Investimentos em educação, saúde e infraestrutura podem ser preteridos em favor da expansão do aparato policial e carcerário. Além disso, a priorização da ordem em detrimento, por vezes, de outras garantias constitucionais, pode levar a um cenário de erosão de liberdades individuais e aumento da vigilância estatal, impactando diretamente o cotidiano e os direitos de cada cidadão. A promessa de "retomar o controle" soa sedutora, mas a sua implementação pode alterar a própria natureza da relação entre Estado e sociedade.
A correlação entre segurança e corrupção, temas que o estudo da UnB aponta como marcas registradas das eleições na região, sugere uma falha sistêmica do Estado. No Brasil, a influência dessa tendência é palpável. Propostas como a de um presidenciável que almeja replicar modelos de segurança como o salvadorenho evidenciam que a dinâmica continental está no epicentro do debate eleitoral doméstico. O próximo pleito brasileiro poderá, em grande medida, ser um reflexo dessa ânsia por ordem, testando os limites entre a promessa de segurança e as consequências de sua busca incisiva para a democracia e o tecido social.
Por que isso importa?
Contexto Rápido
- A década passada viu a ascensão de governos focados em políticas sociais e crescimento econômico na América Latina, mas a crescente criminalidade e percepção de impunidade criaram um vácuo de resposta estatal.
- 70% das eleições pós-2023 na América Latina foram vencidas por candidatos que priorizaram a segurança, refletindo a consolidação de modelos de "tolerância zero" na região.
- A virada eleitoral para a segurança pública redefine o contrato social e a governança, podendo desviar recursos de áreas vitais e reconfigurar as liberdades individuais em nome da ordem.